quarta-feira, maio 26, 2010

Lucien Febvre

«Nenhuma compreensão do presente é possível sem um conhecimento preciso do passado, um conhecimento arejado, um conhecimento inteligente.
Fornecer à meditação dos homens de hoje sobre a Europa de amanhã, sobre esta Europa, sobre este mundo a cuja elaboração violenta assistimos, com uma espécie de espantosa placidez, sobre esta Europa, sobre este mundo que se gera em tão trágicas convulsões, fornecer à meditação dos homens de hoje sobre o ambiente de amanhã as noções históricas, todas as noções e nada mais que as noções de que eles precisam para terem uma compreensão plena do que se passa.»
Lucien Febvre, 1945 in A Europa. Génese de uma Civilização
Tenho um gosto particular de orientar os meus pensamentos e as minhas ideias, nos mais diversos campos: desporto, política, música, história, religião, olhando e admirando grandes exemplos que marcaram a sua presença por conseguirem olhar para o que se passa à nossa volta de modo diferente do habitual. Não que não tenha as minhas próprias ideias, que as tenho, mas estes homens e mulheres são para mim grande exemplo.
Tenho para mim como um paradigma do que acabo de dizer o grande historiador Lucien Febvre. Uma pesquisa rápida na internet diz-nos logo quem foi e a sua importância no seio da historiografia. Febvre é um dos principais percursores da história das mentalidades, uma historiografia que olha para as correntes de pensamento, as mentalidades dos grandes grupos sociais e profissionais como o motor da história, uma história aliás que opera na longa duração, onde as mutações observáveis são transgerecionais. Na minha opinião é sem dúvida dos melhores historiadores que já estudei, tendo assim um lugar de grande destaque na minha prateleira.

Esta citação que apresento é de um livro seu que estou a ler neste momento. O autor, num dos seus cursos leccionado no Collège de France procura encontrar o momento fundador da civilização europeia tentando também traçar as linhas que até aos dias de hoje definem esta mesma civilização. Tudo isto ganha uma importância enorme quando é escrito no fim da segunda guerra mundial, momento em que a Europa está no descrédito máximo, devastada, com capital humano fortemente atingido e as mentalidades que Febvre tanto se ocupa completamente fragilizadas. Momento de grande conflituosidade e ódio mas também é um momento de grande esperança e construção. O que Lucien Febvre diz nesse momento sério é o que eu , timidamente e sem qualquer autoridade, digo neste momento: a compreensão do passado é essencial para a compreensão do presente, o último não existe sem o primeiro. É a consequência lógica e rígida do primeiro. Do mesmo modo seria impossível um psiquiatra tratar do doente sem conhecer as causas passadas que o levaram à loucura. Sobre elas irá adequar o seu método de cura do paciente. O mesmo se aplica à história. Que não se tenha a ilusão que o que se passa é resultado do presente, isso não existe, é ignorância.

f.braga

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