quarta-feira, maio 19, 2010

Ainda não chega?

Começa finalmente a ser do conhecimento público que a situação económico-financeira em que estamos mergulhados não é para ser encarada com a leviandade com que tem sido. Digo isto porque das duas uma: 1. ou o povo é completamente estúpido (e isto não seria inédito) e não quer sequer saber, e aí prefere ler as últimas da tv guia em vez das previsões do diário económico ou mesmo as dissertações jornalísticas de um diário de notícias, com um conteúdo bem menos técnico e pesado mas mesmo assim bastante enriquecido em termos de informação; 2. ou a informação não está a passar pelos canais habituais (telejornais, rádios, meios de comunicação mais usuais) com a intensidade com que deveria, e aqui penso que a responsabilidade recai muito sobre o governo e a responsabilidade que tem perante a sociedade e o seu bem-estar. Não excluindo a primeira hipótese, dado que temos o governo que temos que, eleito pelo povo que temos, toma as decisões que toma, parece-me que o grande responsável por este estado de apatia geral é novamente um governo que está algo perdido entre não querer desiludir ainda mais nem alarmar uma população que o elegeu (ainda que sem maioria) e não querer assumir o pleno fracasso da sua actuação em termos de finanças públicas. Mas a informação nos dias que correm é, graças a Deus (e aos homens) global, e tendo eu o privilégio de ter estudado (e ainda estudar) Economia numa boa faculdade onde a informação sobre a área é aconselhada e disponibilizada gratuitamente, sempre fui um leitor assíduo do Diário Económico, Jornal de Negócios, Financial Times, e de alguns dos principais sites e portais de informação sobre economia, finanças, política, etc. Tendo esta arma fortíssima ao meu alcance (sempre ouvi o meu pai dizer que a ignorância mata, e de facto nos dias que correm só não está informado quem não quer), não é desde há pouco tempo que oiço declarações alarmistas resultantes de estudos de ilustres economistas, administradores e directores de conceituados bancos mundiais, consultoras, instituições financeiras, presidentes de associações e organizações europeias, acerca da situação catastrófica das finanças públicas de alguns estados da UE em concreto, onde se insere Portugal. Não é possível que o governo não tenha acesso a esta informação quando até o mais comum dos mortais tem, no entanto sempre que o governo se manifesta fico com a clara sensação de que dormem descansadíssimos. Mais recentemente foi Fernando Ulrich, CEO do BPI, a exprimir a sua indignação e a afirmar, na passada terça-feira 18 Maio, que “o dia em que batermos na parede não está muito longe. Talvez por semanas.” Para o presidente do BPI “bater na parede significa, por exemplo, a intervenção do FMI. Lamento mas o país tem que saber”, afirmou Ulrich, citado pela edição online do Expresso, durante a sua intervenção no debate “Do Défice ao Desenvolvimento” da Conferência Portugal em Exame.O responsável do BPI referiu-se ainda ao Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) apresentado pelo Governo e deixou o aviso: “tirem já o C do PEC, o C é para esquecer”.“O principal problema de Portugal não é apenas de tesouraria, mas sim o facto de não nos conseguirmos financiar. Não se trata de um problema de preço, mas sim de acesso ao crédito. Um problema que não sabemos hoje quando se vai resolver. Por isso mesmo, sugiro ao Governo que não publique cenários macroeconómicos sem explicar como estes se vão financiar”, disse.“Portugal tem dificuldade em financiar-se e não sabemos quando vai deixar de ter, ou se vai deixar ter, só saberemos se conseguirmos financiamento quando o BCE deixar de comprar”, assegurou, defendendo depois que “ou se discute a sério a economia portuguesa e o seu sistema financeiro, ou teremos graves problemas de futuro”. Se há coisa que conheço da postura deste grande senhor da banca é que só fala publicamente sobre assuntos de interesse público quando é estritamente necessário, quando não há mais alternativas e não há mais por onde se "tapar o sol com a peneira". Mas continuamos a aprovar o casamento gay, a aumentar a frota de carros da polícia sem condutores suficientes para os usar, a avançar com grandes obras públicas como o TGV e o aeroporto (apesar de estarmos quase na bancarrota, termos uma dívida pública abismal e ser cada vez mais difícil e caro a Portugal financiar-se), a apontar o aumento de impostos que castram a actividade económica como solução mas sem reduzir a despesa pública que pesa mais que um elefante às costas... Ainda não chega de avisos? Quem é que é preciso ouvir mais?

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